Muito mais que um score de crédito: conheça o score social da China

Por Maria Teresa Lazarini

Ter o score de crédito alto faz muita diferença na sua vida financeira: por causa de uma pontuação, você pode ter o seu cartão de crédito aprovado ou não, conseguir aquele empréstimo ou ter o pedido de cr[edito reprovado. Mas o score funciona de maneira muito lógica: com dados pessoais como CPF, endereço e nomes dos pais, os bureaus de créditos (órgãos como o Serasa, SPC e Boa Vista) analisam todo seu histórico financeiro, para avaliar se você é bom ou mau pagador.

Se formos pensar no tanto de golpes financeiros que existem no Brasil, o score veio como uma boia de salvação para os bancos e para os cidadãos: a partir dessa pontuação, o banco pode saber melhor para quem ele vai conceder um empréstimo, tendo uma previsão de como a pessoa é como pagadora. Do mesmo jeito, o score também é vantajoso para quem vai pedir um empréstimo, já que a pessoa pode demonstrar ao banco todo seu histórico financeiro.

Agora imagine que quem tem controle desse score não são as instituições financeiras, mas o governo. E que os dados coletados não são referentes a sua vida financeira, mas a todos os campos da sua vida: com quem você anda, as compras que você faz, que tipo de filme você vê ou as suas postagens nas redes sociais. E, para incrementar esse cenário distópico, essa sua pontuação não vai ser só responsável por você ser aprovado em um empréstimo – ela pode te impedir de conseguir um emprego ou até de sair do seu país. Parece a trama de um filme de ficção científica, né?

Infelizmente, essa pontuação existe e tem nome e sobrenome: Sesame Credit, ou Zhima Credit. Criado pelo Conselho de Estado da China, esse score social está sendo implementado como teste desde 2014 e ele funciona de um jeito parecido com o score de crédito brasileiro: parte da pontuação também é dada conforme o histórico da pessoa como pagadora, ou seja, o score vai ter registro se você deixa todas as suas contas em dia, diminuindo sua pontuação se você esquecer de pagar uma fatura ou tiver o CPF negativado.

Mas o score social chinês, que até 2020 não é obrigatório, vai além e explora outros campos da nossa vida. Parecendo parte do livro 1984 de George Orwell, o Sesame Credit toma nota de cada movimento seu, diminuindo sua pontuação se você compartilhar notícias que criticam o governo ou se fizer uma postagem descontente com o sistema de score. Os dados dos cidadãos chinês deixarão de ser, definitivamente, secretos. O Governo chinês já está quase pronto para cantar aquela música do The Police: “Every move you make, every step you take, I’ll be watching you”. (Tradução: “Cada movimento que você fizer, cada passo que você pisar, eu estarei te observando”)

Porém se engana quem pensa que todo esse cenário, que parece um episódio de Black Mirror, só está nas mãos dos políticos. O principal aliado do governo chinês socialista para a criação do Sesame Credit foram justamente empresas, que possuem uma coletânea extensa de dados pessoais dos cidadãos. Sabe aquele cadastro que a gente faz numa loja online? Em que a companhia pede seu endereço, telefone, e-mail e até cartão de crédito? Na China, multinacionais se aproveitaram desse pequeno formulário que milhares de pessoas fazem online para criar uma base de dados.

E a principal multinacional que está ajudando no Sesame Credit é o Alibaba Group. Você provavelmente já ouviu falar do Aliexpress ou até já comprou produtos lá que levaram uns bons meses para chegar da China. Esse tão famoso site é a vertente internacional do Alibaba, o maior site mundial de compras online que lucrou U$$12.8 bilhões no último quadrimestre de 2017. Para aumentar o número de dados sobre os consumidores e crescer o lucro da empresa, o Alibaba Group criou recentemente um aplicativo de pagamento que já está quase substituindo o dinheiro na China, o Alipay.

Com o Alipay você consegue pagar praticamente tudo na China, desde compras na mercearia da esquina, até seus impostos ou multas. E aí fica claro como o Alibaba consegue ter todos os dados dos cidadãos chinês, porque, por meio de um histórico de compras, é possível já desenvolver um perfil de quem é o pagador, quais são seus hábitos de compra e sua rotina.

E o Sesame Credit se aproveita do Alipay de todas as maneiras possíveis. Quando dizemos todas, queremos dizer que o score traçará um perfil para cada cidadão conforme todos os pagamentos que ele faz com o aplicativo. Suponhamos que o chinês Chang receba uma multa por ter atravessado fora da faixa de pedestres (sim, existe isso lá). Já que o ticket desta multa será enviado pelo celular dele, ele consegue pagar este ticket pelo próprio celular, ou seja, pelo Alipay. Com um simples pagamento, o Alibaba já tem em sua base de dados que Chang não é um bom cidadão, que ele infringe as leis. Pronto. Automaticamente, o score dele cai.

Se a chinesa Lian come frequentemente em restaurantes fast-food e aproveita a seção de chocolates no supermercado, pagando essas compras com o Alipay, ela será penalizada pela sua rotina alimentar. Uma vez que qualquer pagamento feito com o Alipay é atrelado ao Sesame Credit, o score de Lian cairá por conta de seus hábitos alimentares não saudáveis. Resumindo a ópera: todos os pagamentos feitos por meio do Alipay irão afetar o score dos cidadãos chineses.

Como falado antes, até 2020, só participa do Sesame Credit quem quer. Mas o impressionante é que muitos chineses já aderiram ao score social e de fato o aprovam, comentando que o sistema é ótimo para comprovar a credibilidade de cada um na sociedade. Além disso, os chineses enxergam o Sesame Credit como uma das maneiras mais eficazes que o governo terá, em 2020, para regular a conduta social dos cidadãos, segundo uma entrevista aos cidadãos feita pelo canal AsianBoss.

Destrinchando o Sesame Credit, o score chinês

Quando o Sesame Credit for obrigatório na China, ele será responsável por aprovar um pedido de empréstimo ou liberar um cartão de crédito – do mesmo jeito que o score de crédito faz no Brasil. De certo modo, esse score será bom para a China, pois, atualmente, o sistema de crédito no país só tem os dados financeiros de uma pequena parcela da população: apenas 320 milhões de habitantes têm um registro de crédito, num total de 1,4 bilhão de habitantes no país. Por conta dessa baixa cobertura do score, processos financeiros como solicitações de empréstimo são muito mais burocráticos e as pessoas encontram uma dificuldade muito maior de aprovação, uma vez que não são todas que possuem registro no sistema de crédito.

Mas, como falamos antes, o Sesame Credit não vai manter registro apenas da vida financeira do cidadão. Já que ele é um score social, ele também vai atuar como uma espécie de ficha criminal que pode impedir pessoas com o score baixo de pegarem trens e aviões ou até de conseguirem um emprego.

Isso acontece porque o perfil de uma pessoa no Sesame Credit pode ser facilmente acessado: como um perfil numa rede social, cada usuário tem uma página com seu nome e pontuação que estará visível para todos. A pontuação vai de 350-950, mas poucas pessoas conseguem chegar ao nível máximo. Números a partir de 700 já são muito bem-vistos na sociedade chinesa, enquanto scores abaixo de 500 são dignos de exclusão social. Veja os níveis a seguir:

Mesmo que boa parte da definição do score social seja determinada pelos pagamentos no Alipay, que já revelam uma boa ideia de quem é o cidadão, o Sesame Credit determina a pontuação de cada um com base em 5 pilares: comportamento, identificação, relações sociais, histórico de crédito e cumprimento das leis.

O aspecto que mais assusta nessa pontuação é o item “relações sociais”. Sim, parece uma ideia absurda, mas a pontuação no Sesame Credit será alterada conforme as amizades e contatos pessoais do cidadão. Isso quer dizer que, se a pessoa andar com “más companhias”, aqueles com o score baixo, a pontuação da própria pessoa também baixará. E você deve estar se perguntando: “mas como o Sesame Credit vai saber quem são os amigos dos cidadãos na vida real?”. A resposta cai nas redes sociais.

A partir de mensagens, curtidas e comentários nas postagens de amigos com pontuações baixas, o score social irá automaticamente supor que você está convivendo com pessoas que não são boas companhias, que representam certa desordem na sociedade. Como uma “lição”, a pontuação do seu score vai diminuir para você aprender que deve andar apenas com as pessoas certas, com as pessoas aprovadas pelo governo.

“O Sesame Credit vai assegurar que as pessoas más na sociedade não tenham para onde ir, enquanto as boas pessoas vão poder se movimentar livremente e sem barreiras”, sintetizou a executiva da Alibaba Lucy Pen, em entrevista à revista Wired.

Felizmente, no Brasil não existe um sistema que rastreia todas as nossas postagens, amizades e compras e compila numa pontuação que define o que podemos fazer ou não na sociedade. Aqui a gente só tem que se preocupar com o score de crédito, que, com as contas em dia, já mantém a avaliação alta. Por enquanto, não somos partes do filme de ficção científica que vai acontecer lá na China. Mas quem sabe um dia?